2025: Quando a governança amadurece na estrutura, mas a realidade operacional ainda decide o desfecho
Ao longo de 2025, o setor de mineração continuou exibindo um paradoxo recorrente. A governança, enquanto arquitetura formal, avançou. Há mais padrões, mais auditorias, mais compromissos públicos e mais linguagem comum sobre risco. Ao mesmo tempo, incidentes seguiram surgindo com mecanismos conhecidos, quase sempre ligados ao mesmo núcleo: a execução operacional e a disciplina de controle de barreiras não acompanharam a sofisticação do discurso.
Em outras palavras, o desafio de 2025 não foi “entender o que fazer”. Foi fazer de maneira consistente, verificável e financiada, especialmente fora do ecossistema de maior escrutínio e pressão de capital.
Para diagnosticar esses gaps com precisão, vale usar como lente o World Mine Tailings Failures (WMTF). O WMTF se posiciona explicitamente como plataforma de apoio à pesquisa global em falhas de rejeitos, com foco em causa-raiz, prevenção de perdas e análise de tendências. A contribuição mais valiosa, porém, não é a retórica, e sim a capacidade de deslocar o debate do anedótico para o sistêmico.
A conversa começa pelo denominador, e o denominador segue frágil
O setor ainda opera com estatísticas “confortáveis” que não se sustentam. O WMTF afirma de forma direta que duas estatísticas amplamente repetidas, incluindo a ideia de existir algo como “3.500 TSFs no mundo”, não têm base factual. A consequência disso é operacional e financeira: sem um denominador minimamente correto, qualquer discussão sobre taxa de falhas, priorização de investimentos e dimensionamento de fiscalização vira uma aproximação conveniente, mas perigosa.
A partir de compilações e evidências que considera mais defensáveis, o WMTF trabalha com a ordem de grandeza de 29.000 a 35.000 instalações de rejeitos no portfólio global, incluindo ativas, inativas e abandonadas. Isso muda completamente o mapa mental de risco. Um portfólio dessa escala implica legados extensos, heterogeneidade de padrões, lacunas regulatórias e, sobretudo, uma grande quantidade de estruturas que não aparecem em disclosures corporativos.
Um contraponto importante aqui é o Global Tailings Portal, lançado em 2020, que disponibiliza dados detalhados sobre mais de 1.800 barragens de rejeitos reportadas por grandes empresas em resposta a solicitações de investidores. Ele é útil, mas também evidencia a limitação estrutural: a transparência voluntária, por si só, não cobre a maior parte do universo e não substitui inventários oficiais, completos e mantidos ao longo do tempo.
Escala física e crescimento de inventário: o risco não é estático
Mesmo onde a governança melhorou, a física do problema ficou mais desafiadora. O WMTF discute crescimento projetado de deposições e concentração de risco em instalações ativas, incluindo o aumento esperado de carga e volume ao longo do tempo, com uma fração significativa das falhas catastróficas historicamente associada a estruturas em operação. Quando o sistema exige mais rejeito por unidade de produto, a governança precisa deixar de ser “controle de conformidade” e virar gestão de capacidade e de margens operacionais, incluindo água, drenagem, alteamentos, manutenção e disciplina de decisão.
A Responsible Mining Foundation, ao sintetizar o trabalho do WMTF, aponta explicitamente a escala do passivo global, mencionando a ordem de grandeza de 29.000–35.000 TSFs e cerca de 223 bilhões de toneladas de rejeitos armazenados, incluindo estruturas ativas, inativas e abandonadas. Esse número não é um detalhe. Ele define o verdadeiro “tamanho do sistema” que a governança precisa controlar.
O erro recorrente: confundir perigo com risco e, com isso, errar prioridades
Há um ponto técnico que explica boa parte do desalinhamento entre governança e prática: muitas organizações melhoraram a classificação de “perigo potencial”, mas ainda falham em transformar isso em gestão de risco real, orientada por condição, desempenho e capacidade de resposta.
O próprio WMTF é explícito: perigo potencial alto não implica, por si só, risco alto. Risco não pode ser presumido apenas pelo perigo. Perigo define o nível de cuidado exigido. Risco exige estado atual, mecanismos acionáveis, incertezas dominantes, tendências de instrumentação e, principalmente, governança de decisão quando sinais aparecem.
É aqui que 2025 fica didático. Estamos ficando melhor em “classificar” e “reportar”, mas ainda desigual em garantir que a classificação governe as decisões duras, aquelas que custam produção, CAPEX e conforto político interno.
O que 2025 revelou sobre o gap entre estrutura e execução
O padrão que se repete, em diferentes geografias e maturidades institucionais, não é a ausência de documentos. É a degradação silenciosa de barreiras, até que um gatilho operacional, muitas vezes associado a água, exponha a fragilidade. E água segue sendo o grande equalizador: quando a governança não mantém capacidade hidráulica, drenagem, manutenção e contingência como variáveis de “controle de processo”, a estrutura vira refém do clima, do tempo de resposta e do acaso.
Além disso, 2025 expôs com mais força uma camada estrutural do problema: uma parcela relevante do mundo opera fora do ecossistema de transparência e pressão de capital que “puxa” a governança para cima. Nesse contexto, o que define performance não é o que está escrito, é o que é medido, acionado e financiado.
Diagnóstico VinQ: o que precisa mudar para que a governança seja sentida na prática
A maturidade real começa quando governança deixa de ser um conjunto de declarações e vira um sistema de operação. Isso exige, ao mesmo tempo, visão de portfólio e obsessão por detalhe. Abaixo estão os pontos que, na prática, separam “governança que parece boa” de “governança que segura rejeito e água no pior dia”.
1) Inventário como ativo de gestão, não como relatório estático
Sem inventários completos, incluindo estruturas legadas, a governança perde o controle do próprio perímetro. O WMTF insiste na necessidade de contabilização por governos e transparência mínima para reduzir a assimetria de informação e permitir priorização adequada. O efeito direto é financeiro e operacional: sem saber o que existe, em que condição, sob qual responsabilidade e com que status operacional, não há como calibrar orçamento de descomissionamento, manutenção e reabilitação.
2) Água como sistema operacional e variável de risco dominante
A maior parte das organizações “sabe” que água importa, mas poucas tratam água como uma disciplina equivalente à produção. Água precisa de capacidade, contingência, manutenção e governança de decisão. Quando chuva extrema, falha de energia, entupimento, erosão, transientes de poropressão e alterações de drenagem entram no jogo, a diferença entre “compliance” e “controle” fica evidente.
3) TARPs que governam decisão, com autoridade real e custo explicitado
Gatilhos operacionais não podem ser simbólicos. Precisam ser objetivos, conectados a modos de falha, sustentados por instrumentação e inspeções qualificadas, com autoridade explícita para parar, reduzir carga hidráulica, limitar deposição, mobilizar resposta e escalar para nível executivo. Sem isso, o sistema devolve decisões técnicas para o campo político do curto prazo.
4) QA/QC como evidência rastreável, não como rotina presumida
Boa parte das falhas operacionais não nasce do “modelo geotécnico”, mas da variabilidade introduzida por execução, mudanças não documentadas e controles de qualidade inconsistentes. Governança robusta transforma QA/QC em trilha de evidência. Isso inclui conformidade geométrica, rastreabilidade de materiais, as-built confiável, fechamento de não conformidades e integração real com o engenheiro de registro e revisões independentes.
5) Perigo potencial como linguagem de cuidado, risco como linguagem de decisão
O WMTF deixa claro que perigo não é risco. A maturidade acontece quando a organização usa perigo para definir rigor de controle e usa risco, com base em condição e desempenho, para definir prioridades e investimentos. Esse deslocamento é o que impede que portfólios “pareçam” bem governados, mas falhem onde a condição real estava degradada.
6) Transparência mínima verificável, para reduzir zonas de sombra
A transparência que realmente melhora performance não é propaganda. É disclosure mínimo e verificável sobre inventário, status, intervenções críticas, incidentes, lições aprendidas e métricas de barreiras. O Global Tailings Portal mostra o valor desse movimento, mas também evidencia sua limitação quando restrito a um subconjunto do mercado. Em termos de governança, o objetivo não é “exposição”, é reduzir o espaço onde risco se torna barato por invisibilidade.
O teste final de governança que 2025 reforçou
Em 2025, a pergunta que separa maturidade de aparência ficou ainda mais clara. Não é se existe um padrão adotado. É se, amanhã, com chuva extrema, falha de energia, troca de turno, pressão por produção e interrupção de rotina, o seu sistema continua operando com controle técnico.
O WMTF existe, em grande parte, porque a história mostra que o setor é excelente em aprender “em tese”, mas irregular em consolidar aprendizagem em prática repetível. O próximo salto de maturidade não virá de um framework adicional, virá de transformar governança em performance operacional de barreiras, com inventário completo, água tratada como variável crítica, gatilhos com autoridade real e QA/QC como evidência.
Esse é o ponto em que a VinQ se posiciona, não como produtora de relatórios, mas como parceira para reduzir assimetria entre discurso e realidade, e para fazer a governança ser sentida onde ela importa, na estabilidade, na água, no dia a dia, e nas decisões difíceis.
Autores:
João Paulo dos Santos
Bacharel em Engenharia de Minas (UFMG), Mestre em Civil Engineering and Management (University of Glasgow), Especialista em Engenharia Geotécnica e Gerenciamento de Projetos.
Engenheiro de Minas especialista em geotecnia e gestão de projetos, referência internacional em barragens e estruturas geotécnicas aplicadas à mineração.
Matheus Vicentini
Engenheiro Civil (Unilavras), Especialista em Engenharia Geotécnica (PUC Minas).
Engenheiro Civil com atuação em geotecnia aplicada à mineração, experiência em projetos, auditorias e obras de descaracterização de barragens.