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Estabilidade emocional e tomada de decisão na mineração: um fator crítico de gestão de riscos

“Não existe gestão de risco eficaz sem gestão emocional.”

A mineração é uma atividade caracterizada por elevada complexidade técnica, altos níveis de incerteza e decisões com potencial de impacto significativo sobre pessoas, meio ambiente, ativos e reputação corporativa. Tradicionalmente, a gestão de riscos nesse setor concentra-se em parâmetros técnicos, modelos probabilísticos, fatores de segurança e conformidade regulatória. No entanto, existe um elemento central, frequentemente subestimado, que conecta todos esses instrumentos: o fator humano, em especial a estabilidade emocional de quem decide.

 

A ilusão da suficiência técnica

É comum presumir que profissionais altamente qualificados, com sólida formação técnica e ampla experiência, estarão sempre aptos a tomar decisões adequadas em situações críticas. Essa suposição ignora uma variável essencial: a capacidade de decidir sob pressão extrema.

Estresse, medo de consequências pessoais ou institucionais, pressão hierárquica, conflitos de interesse e ambientes organizacionais punitivos afetam diretamente o julgamento, o tempo de resposta e a percepção de risco. Nessas condições, a excelência técnica, isoladamente, pode se tornar insuficiente — ou até irrelevante.

 

O PAEBM como expressão do risco humano

O Plano de Ação de Emergência para Barragens de Mineração (PAEBM) representa de forma clara essa realidade. Na maioria dos empreendimentos, o plano está formalmente estruturado, atende aos requisitos normativos e é periodicamente revisado. Ainda assim, falhas ocorrem.

Na prática, o acionamento do PAEBM não é apenas um ato técnico ou procedimental. Trata-se de uma decisão humana, tomada em um contexto de incerteza, pressão de tempo e potenciais consequências severas. A hesitação em acionar o plano raramente decorre da falta de conhecimento, mas sim de fatores emocionais como:

  • Medo de errar ou de “alarmar” indevidamente
  • Pressão por continuidade operacional
  • Receio de responsabilização pessoal
  • Dificuldade de assumir decisões impopulares

Esses fatores configuram um risco sistêmico, que não aparece em matrizes tradicionais, mas pode comprometer toda a lógica de segurança.

 

Estabilidade emocional como elemento da gestão de riscos

Reconhecer a estabilidade emocional como componente da gestão de riscos é um passo necessário para a maturidade organizacional. Assim como parâmetros geotécnicos ou critérios de aceitabilidade, a capacidade emocional do decisor influencia diretamente a confiabilidade do sistema.

Nesse sentido, a estabilidade emocional deve ser tratada como:

  • Um ativo de segurança operacional
  • Um fator de confiabilidade na tomada de decisão
  • Um elemento estruturante da cultura de gestão de riscos

Ignorá-la significa aceitar um risco oculto, de difícil quantificação, porém com potencial de consequências graves.

 

Caminhos para uma abordagem mais eficaz

Uma gestão de riscos realmente robusta na mineração exige a integração explícita dos fatores humanos. Isso inclui, entre outros aspectos:

  • Treinamentos que simulem cenários reais de pressão, e não apenas o cumprimento de procedimentos
  • Exercícios de acionamento do PAEBM focados no processo decisório, e não somente na execução operacional
  • Ambientes organizacionais que protejam o decisor que age de forma preventiva e responsável
  • Lideranças preparadas para absorver pressões externas, evitando a transferência de estresse para níveis técnicos
  • Inclusão dos fatores humanos e organizacionais nos estudos e análises de risco

 

Considerações finais

A mineração moderna exige mais do que engenharia de qualidade e conformidade normativa. Exige pessoas preparadas para decidir quando os modelos falham, os dados são incompletos e o tempo é limitado. Nesse contexto, a gestão emocional deixa de ser um tema periférico e passa a ocupar posição central na segurança e na sustentabilidade do setor.

Não existe gestão de risco eficaz sem gestão emocional.

Reconhecer isso é um passo essencial para decisões mais seguras, responsáveis e alinhadas com a complexidade real da mineração.

Autores:

João Paulo dos Santos

Bacharel em Engenharia de Minas (UFMG), Mestre em Civil Engineering and Management (University of Glasgow), Especialista em Engenharia Geotécnica e Gerenciamento de Projetos.

Engenheiro de Minas especialista em geotecnia e gestão de projetos, referência internacional em barragens e estruturas geotécnicas aplicadas à mineração.

Leandro Azevedo da Silva

Bacharel em Geologia (UFRRJ), Mestre em Engenharia de Minas (UFMG) e Especialista em Engenharia de Recursos Minerais.

Geólogo com quase 20 anos de experiência em geotecnia, lidera projetos técnicos na VINQ, unindo inovação e segurança em soluções para mineração.

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