Gestão de riscos na mineração: Por que os critérios geotécnicos são o alicerce da segurança operacional
A mineração é, por natureza, uma atividade de alto risco. Lida com grandes volumes de materiais, estruturas críticas e ambientes em constante mudança. Nesse contexto, a gestão de riscos não pode ser um apêndice dos processos operacionais, ela precisa ser parte estruturante da estratégia técnica e organizacional do empreendimento.
Entre os diversos tipos de riscos enfrentados pela mineração, os riscos geotécnicos se destacam por seu potencial de impacto direto em vidas humanas, no meio ambiente e na reputação das empresas. E para que o gerenciamento desses riscos seja eficaz, a definição clara de critérios técnicos é essencial.
Risco geotécnico: muito além da instabilidade visível
Risco não é sinônimo de falha iminente. Na engenharia geotécnica, risco representa a probabilidade de ocorrência de um evento adverso associado às consequências que esse evento pode gerar. Isso significa que mesmo uma estrutura aparentemente estável pode representar um risco elevado se houver:
- Alto grau de incerteza nos parâmetros de projeto ou monitoramento;
- Condições hidrológicas extremas ou variáveis;
- Interação mal compreendida com outras estruturas;
- Consequências catastróficas em caso de falha.
Portanto, identificar riscos exige não só conhecimento técnico, mas também critérios claros e objetivos que permitam avaliar, classificar e priorizar cada cenário com base em dados e não em percepções isoladas.
Critérios de risco geotécnico: base para uma gestão eficiente
A ausência de critérios padronizados ainda é um gargalo comum em projetos geotécnicos. Sem uma linguagem técnica compartilhada, decisões importantes tornam-se dependentes da experiência individual, dificultando a rastreabilidade e aumentando o risco de falhas de comunicação entre as equipes.
A implementação de critérios técnicos bem definidos permite:
- Estabelecer limites mínimos aceitáveis de desempenho (ex: fator de segurança, deslocamentos máximos, níveis piezométricos);
- Aplicar metodologias reconhecidas de classificação de risco (como matrizes de risco, Bow-Tie, FMEA);
- Integrar os riscos geotécnicos aos sistemas corporativos de gestão de risco;
- Padronizar planos de ação e prioridades de resposta em caso de anomalias detectadas.
A cultura de risco começa com o critério técnico
Em ambientes de risco elevado, como a mineração, uma cultura organizacional madura em relação ao risco não surge apenas com treinamentos ou boas intenções. Ela depende de métodos estruturados de avaliação e resposta, e isso começa com o estabelecimento de critérios técnicos que deem suporte ao julgamento profissional.
Esses critérios devem ser construídos com base:
- No histórico da estrutura;
- Na experiência operacional acumulada;
- Em dados de monitoramento contínuo;
- Na integração entre as áreas de geotecnia, planejamento, operação e segurança.
Governança e responsabilidade: o papel estratégico do EoR
A presença de um Engenheiro de Registro (EoR) em estruturas críticas reforça a necessidade de critérios técnicos bem definidos. Afinal, a atuação do EoR exige uma base documental clara, procedimentos consistentes e métricas confiáveis para identificar desvios e propor medidas corretivas. Sem isso, a governança se enfraquece, e o risco organizacional aumenta.
Além disso, critérios bem estabelecidos auxiliam as empresas a responderem de forma mais transparente a auditorias, fiscalizações e exigências legais — especialmente diante de um ambiente regulatório cada vez mais rigoroso e sensível a falhas geotécnicas.
Critério técnico como ferramenta de sustentabilidade
A gestão de riscos na mineração não deve ser vista apenas como um mecanismo de defesa, mas como um instrumento de geração de valor, permitindo decisões mais assertivas, menor exposição a passivos e maior confiança de stakeholders.
Na VinQ, defendemos que engenharia geotécnica de verdade é aquela que antecipa riscos, padroniza critérios e transforma incertezas em decisões técnicas robustas. Adotar critérios de risco geotécnico bem definidos não é apenas uma boa prática — é uma medida vital para garantir a sustentabilidade dos empreendimentos, a segurança das pessoas e a proteção do meio ambiente.
Autores:
João Paulo dos Santos
Bacharel em Engenharia de Minas (UFMG), Mestre em Civil Engineering and Management (University of Glasgow), Especialista em Engenharia Geotécnica e Gerenciamento de Projetos.
Engenheiro de Minas especialista em geotecnia e gestão de projetos, referência internacional em barragens e estruturas geotécnicas aplicadas à mineração.
Matheus Vicentini
Engenheiro Civil (Unilavras), Especialista em Engenharia Geotécnica (PUC Minas).
Engenheiro Civil com atuação em geotecnia aplicada à mineração, experiência em projetos, auditorias e obras de descaracterização de barragens.